terça-feira, 5 de julho de 2011

Coluna do Meio - Por Isabella Saes para a Revista O Globo 26.06.2011

Sou antiga, mas nem tanto. Explico: vi o surgimento da internet na faculdade e imprimi muitos documentos naquela poluição sonora em forma de impressora chamada matricial. Quem tem por volta dos 35 anos sabe exatamente do que estou falando. Nós, da geração do meio, não nascemos com a mão no mouse, como a geração Y, mas também não somos como nossos pais, para quem Mouse era apenas o sobrenome do Mickey. Estamos bem ali no meio, sabe?

Tenho parentes de 60 e poucos anos que têm medo do computador e travam uma luta como se ele fosse o "abominável homem dos bits". Outros tentam, mas não conseguem explicar o que está acontecendo: "Sabe aquele coisinho, que fica em cima daquele negocinho, no canto esquerdo superior? Então, congelou". Hein?
 
 Mas há também os que querem estar em dia com a tecnologia e fazem aulas semanais de computação. Por outro lado, minhas priminhas de 10 anos dizem, meio irritadas: "Não, você apertou o botão errado. É aqui, ó. Tipo, é só me dar um add no Face e pronto. Que mico!" E resolvem, em segundos, aquele problema, que na minha cabeça não tinha solução.

Lembro-me bem de, em meados dos anos 90, ter me matriculado num curso de MS-DOS, um conjunto de códigos esquisitos que você digitava numa tela preta de um aparelho - hoje sonho de consumo de diretores de arte - numa espécie de preparativo para trabalhar: as várias letrinhas verdes apareciam na tela como se um novo mundo se abrisse frente aos meus olhos. Dá para imaginar a reação de um Y ouvindo essa história?

O fato é que, para a geração do meio, é fácil trabalhar num projeto seja em MAC ou PC, baixar aplicativos num tablet, fazer parte de uma rede social. Mas, ao mesmo tempo, se há algo um pouquinho mais complicado a fazer, um caminho mais longo a percorrer, e - para a imensa maioria das mulheres - um controle remoto com mais teclas do que as nossas antigas conhecidas do videocassete...Aí, danou-se tudo.
 
Ao mesmo tempo em que a tecnologia, as redes sociais e os gadgets adiantam a vida, eles também causam certo estranhamento, ainda que sejam parte relativamente necessária e facilitadora da rotina. É que, como uma representante fiel da geração do meio, gosto de sair para bater papo com os amigos, saber como eles estão, encontrar, olhar no olho. Essa coisa de fazer check-in sem ser em aeroportos (Foursquare), resumir a vida em 140 caracteres (Twitter) e curtir ou não um vídeo ou uma foto (Facebook) é uma ótima forma de compartilhar informações. Estou no Twitter por uma questão profissional, e reconheço sua força. Tem dias em que até me empolgo, mas confesso: volta e meia me dá um bode danado.

Fora as vezes em que me pego observando as pessoas há horas olhando para a tela de um aparelhinho qualquer, no metrô, no ônibus e até andando na rua e fazendo disso um momento de diversão enquanto o trânsito cada vez pior da cidade está parado. Todos imersos em suas solidões particulares. Isso sem entrar na questão do consumo desenfreado. Quem tem computador, quer iPad; quem tem o iPhone 3, quer o 4; e por aí vai. E o pior é que, às vezes, nem conseguimos parar para pensar na necessidade de tudo isso. Não dá tempo, né?

Dizem os budistas que um dos principais desafios dos seres humanos é encontrar o "caminho do meio". Bom, pelo menos o tecnológico a gente já achou. A geração do meio reflete sobre as mudanças, entende a evolução pela qual passa o mundo, aproveita o que ela tem de melhor, mas não deixa de dar uma volta ao ar livre, comprar o pão com o seu Manuel da padaria e - o mais importante - rir de si mesma. Taí zebrinha, contigo: coluna do meio!